Não-amor, não-querido, doce-contrário-que-em-mim-se-encaixa, a ti entrego uma pequena confissão: eu fui o pequeno rodopio que as folhas arrastadas pela brisa fizeram em torno de tuas pernas cansadas, durante a última madrugada. O caminho calejar tua pele grossa, teus dedos longos, teus sapatos maltrapilhos, e a poeira meter-se pelos poros sem convite; eu observei. Teus cabelos voarem, tuas mãos sacudirem, teu peito arder em contato com a emoção de sentir-se vivo e dolorido – viver é dor, pensaste com medo e ansiedade, misto próprio teu; eu vi. Comovida, eu brinquei na sombra, assobiei no invisível, beijei-te sob as mantas, corri e aninhei-me ao teu lado enquanto tu descobrias um segredo qualquer por entre as estrelas. E eu sei que fechaste os olhos – encarei teus cílios – e pediste, e sentiste, e, num raro momento eterno, soubeste. O último sussurro carregado de paixão, o brilho que despontou um novo dia, o orvalho que cobriu nossos pêlos – largamo-nos, sem jeito, sem pretexto, sem protesto, no meio do jardim. E amanhecemos na terra, melados de sereno, cobertos de grama, descobertos pelos rouxinóis. Eu confesso que fui, e que vou, e que sou contigo. Porque tenho os selos de minhas cartas em tuas gavetas, não-amor. Porque derramei o leite no carpete de tua sala, não-querido. Porque vivo em teus lábios e choro em teus cabelos, doce-contrário-que-em-mim-se-encaixa. Nomenclaturas não nos cabem. És tu, sou eu, e ainda assim somos nós. “Você sabe”.
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Quão incríveis eram os laços metafísicos que surgiram! Um tendão, tão visceral, e, sim, intimista, sim, mas não pessoal. Grupos sociais se construindo fragilmente, suas relações ligadas por ações das mais simplórias: Lalesca quis sentar-se ao lado de Paola durante a aula. Relações não ditas, os papéis se construindo na repetição dos dias, apenas uma intimidade forçada pelo vivido. A tirania da intimidade. Cumprindo os tais papéis impróprios, gozando amargamente da proximidade aos indivíduos alheios ao mundo, aconchegando-se na pele de estranhos.
Ao meu epitáfio,
trago
fumo
ao meu coração
[sem rumo
sem saída]
mais um segundo
que desraigo em tua faca;
Entorpecida.